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Sábado, Julho 19, 2008 (2:05 AM)


Nonsense ou o cúmulo do sutil (2004)

e lá foi-se num sopro pesado desprendendo-se dos galhos à sua volta enquanto que inutilmente tentava amarrar os cadarços dos velhos sapatos, mas cega de amor simplesmente não enxergava os passos cegos que dava e ao mesmo tempo em que ia, em que ia, ao mesmo tempo em que, ao mesmo em que ia voando e tropeçando em soluços, ao mesmo tempo em que ia, tremia, e tremia, e tremia por cada lágrima que rolava aridamente dos seus enormes olhos tristes de jabuticaba,
olhos gordos de sono e inchaço e cinismos sinuosos,
tremia e tropeçava,
e caía, e chorava,
e ria e caía e gozava.
mas pararam-na, ou simplesmente cansou.
Então tirou a roupa rasgada e jogou fora as lentes descartáveis que grudavam em suas retinas áridas teimosas em secar.
Enfim podia banhar-se em sua banheira entornando de aveia e farinha láctea e leite puralac e comer-se mergulhada nessa sua prestigiosa papinha branquinha e pastosa feita com todo o carinho pela mamãe.
"nada melhor do que se decompor em seu próprio ritmo" pensou, voltando a morrer.
e foi afogando-se num suspiro lento e prolongado enquanto que por reflexo tirava mais uma máscara e a jogava no vazio para não perdê-la consigo de novo,
para não mais ter que procurar quando voltasse,
jogou-a no escuro e apagou as luzes da escuridão,
perdendo-se e deixando-se perder
na futilidade óbvia do amor,
um lado solitário o outro multidão,
um lado solidão o outro farto de saudades,
paixão e cansaço,
cara e coroa,
jekyll and hyde,
yes!
nós também temos o nosso halloween...








Sweet Relief (2004)

baby, blow me away
soft, like I was yesterday.
sweet and painful relief...
feeling alone equals lack of intimicy.

me sopra da tua boca frouxa num suspiro morno
como se eu nem fosse mais...
quem sempre te quis tão bem

trap me forever and more, love
in the little corner of your eye
like a lonely, lonely tear
that you've struggled to dry.

give it a minute, brain
a minute, so it can blow me away.
sweet relief of yesterday...
(another dime to drown the day)








Saudade (2004)

como uma leve sensação de amnésia
rondando o meu dia-a-dia,
dos meus últimos dias.
como um leve esquecimento
sem por que
de si mesmo.
como uma fraqueza de certeza.
como uma fina sombra de
melancolia aguda.
como inconstantes ânsias alimentadas
por cada segundo que demora.

e a cada minuto, se devora
um segundo de universo paralelo
- de um amarelo universo paralelo -
de um complexo universo paralelo.
a cada minuto perdido,
um outro possível inexiste.

como uma leve coceira na alma
que se sente
mas não se alcança.
como uma vaga necessidade
de se cavar sem fim,
lá no fundo do mangue da memória.
de achar não se sabe o quê.
[...]

e persiste em existir
Uma lacuna que se expande
e nunca completa.








Amor x Solipsismo (2005)
Porque sartre toca muito nisso no ‘entre quatro paredes’, na impossibilidade física de totalizar o outro, de conceber a diferença alheia em sua completude, no inferno dos olhares que nunca, nunca piscam e te revelam incansavelmente na estranheza que você vem a causar e que os outros te causam. Um espelho sem fim de tudo que não te pertence. etnocentrismo humano, individual, unitário. Partindo disso, me vem de repente a constante que se tem de se buscar sempre rotulações sociais, padronizar o incomensurável. De se classificar a humanidade em grupos, em símbolos (muitas vezes sem sentido), de se agrupar, se esconder e se limitar. e a questão que me vem é a de que eu também sou o outro, sempre, eu também provoco o mundo e não só o mundo me provoca, toda a questão da linguagem (sempre ela) e do diálogo (two way monologue). Interação. De que os grupos por mais seletos, são ilusões. Partindo pro solipsismo, ou uma fração aceitável dele (vertente filosófica que defende que a única realidade é a pessoal, interna e indivisível) você tem a problemática social da extrema individualidade: veja bem, somos condenados a solidão de nós mesmos, presos isoladamente em um corpo, uma ilha, impossível de ocupar o mesmo lugar de outro corpo, de se juntar em continentes, digamos. O meu entendimento de mundo irá diferir do seu entendimento de mundo, por mais próximos que eles sejam, por mais idênticos que pareçam. As experiências humanas são singulares, por mais que similares. constantemente buscamos a fuga dessa prisão de nascença, dessa prisão psicológica, construindo pontes na base da linguagem entre nossa ilha de emoções e conhecimentos e as outras ilhotas ao nosso redor, se igualando ou se assemelhando ao que os olhares “infernais” esperam que sejamos, procurando aceitação, acolhimento (a expectativa alheia. A expectativa é coisa do diabo.) A linguagem contudo é falha. Nunca se completa o entendimento, a ponte não chega por inteira, a flecha não vai no alvo. Quando eu digo amor, a minha idéia de amor, por mais que compartilhamos um mesmo conceito ou uma mesma ideologia do que vem a ser o amor, enfim, quando eu falo “amor” me vem junto toda uma série de experiências, leituras e interpretações que me são próprias e somente minhas sobre isso. O diálogo é um composto de idéias tangentes e perfeitamente perpendiculares, que vão e vem de um destinatário para outro, sem nunca se antigirem, nunca se baterem. Contudo, na nossa busca por entendimento, por completude, esquecemos de que somos também o outro, de que somos capazes de influenciar, de mudar a maré que nos envolve de forma totalmente singular. camuflamos nossa alteridade ao invés de exaltá-la. E aí eu chego no amor (linguagem exata, ponte definitiva). porque pra mim amor tem tudo a ver com linguagem, com atingir ao alvo que a linguagem propriamente dita não atinge. é sacar tudo sem precisar sacar nada e se fascinar com cada detalhe que você entende e não entende tão bem, compreender e ser compreendido não no diálogo, mas no íntimo, no âmago. Como se as palavras flutuassem não em linha reta, mas desordenadamente, se encontrando e se completando no vácuo das ilhas e criando uma sinfonia perfeita entre as diferenças dos que amam. É compreender na impossibilidade de compreensão. E esse santo graal do amor que todo mundo busca, esse se encontrar no outro, se ele se baseia na singularidade de cada um, no nosso ser mais sincero, no que realmente podemos impactar nos outros, nos aspectos fascinantes que a alteridade de cada um exalta por aí, não taria aí a explicação pra tanto amor mal-resolvido que existe no mundo? Pra tanta solidão? a não aceitação do outro que é você, de suas particularidades? a falta de linguagem perfeita (amor) entre você e você mesmo? de auto-entendimento? porque pelo que me parece, uma das grandes questão filosóficas é a impossibilidade de se quebrar o caráter dual das coisas humanas. Da grande divisão da alma, dos dois lados da moeda, de que há sempre um "outro", um "duplo" (artaud), uma sombra pra tudo. quando que, se aceitamos essa dualidade, e assim aceitamos o outro, o diferente, a singularidade nossa e alheia (e paramos de tentar nos assimilar para se integrar) aí há sim a possibilidade de se - não quebrar a individualidade - mas de se existir um solipsismo novo, um que seja possível e crível, a dois, uma singularidade compartilhada, amada e aceitada. Como uma simbiose ou duas celas carcerárias dividindo a mesma grade de barras de ferro.

Voltando pra Sartre, em o existencialismo é humanismo, pra fechar:

"estou obrigado a querer, ao mesmo tempo que a minha liberdade, a liberdade dos outros: não posso tomar minha liberdade como fim se não tomo igualmente assim a dos outros."














C l e a n.