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Segunda-feira, Setembro 17, 2007 (3:25 AM)


teste






Domingo, Setembro 16, 2007 (2:49 AM)


Diálogo sem rumo
ou a crônica de um desvio abrupto


- Foi num vácuo da percepção, sabe. sim.
Num segundo de distração, de silêncio mental. foi.
Minha indisposição refletiu de um plano cósmico a outro,
mudou de tom no vazio rarefeito do ar e sem motivo nenhum
esvaiu-se, desfaleceu-se, parou de vibrar, dissipou-se de vez.
Nada aparentemente especial, sabe, mudança brusca de humor.

- Amor, humor. (humor, amor, digo).

Pura vontade de mudar, acho.
Vontade não recente, não, de muito antes. é.
acúmulo de vontade.
Que foi sendo assimilada, assimilada
e aí já quase esquecida
aconteceu.
A lei da atração e tudo o mais o que se vende hoje em dia nos livros de auto-ajuda da vida (rá).
A “física da alma”. Tudo ilusão, sim pode ser e o que não é.
Basta fazer o efeito desejado sem comprometer a invenção da causa, a suposta lei,
é sempre assim sabe.
Num solavanco do ônibus tudo se encaixa. é.

A trajetória da rua que segue levemente obliqua, levemente puxando seu humor de um sentido no mundo a outro destino vagamente similar, sem que você note a diferença + Leve mudança da posição do sol sobre você por culpa da rotação da terra e da obliqüidade da rua em que você segue = Mudança da luz de norte a quase noroeste que acaba atingindo num feixe de raio luminoso único e despretensioso, desviado pelo espelho do retrovisor do ônibus, algum chakra qualquer adormecido há meses.
Sei que deu o alívio já há tanto esperado
e quase esquecido e acabou que foi,
foi bem ali naquela hora discreta e incerta
como qualquer outra hora discreta e incerta qualquer.
Sem explicação. Alívio sem aviso.
Ou o que quer que tenha sido, enfim.
O último segundo do desespero que passou do prazo de validade
e me abandonou num consciente estado de solidão,
solidão aceita como completude. plenitude, digo.
Tudo muito lógico, a lógica da alma, veja você. é.

Tá no Blues, sim, sim, blues, toda aquela poderosa liberação, elevação de espírito.
Desvios abruptos de emoção, o blues. Ou harmonia de emoções distintas, veja bem,
uma mudança em sintonia do estado sad sad lamento blues ao freeing spirit cântico febril soul-blues.
Porque o blues é libertador. É febre. sim.
- É cantando o mal que o mal se espanta, já se dizia.
É a libertação das dores da alma em ondas sonoras de emancipação.
E o soul também é. revigorante, melhor dizer.
Mas lentamente, gradualmente...

Comigo não, comigo foi tudo sempre abrupto - mas sem solavancos dessa vez.
Repentino, do nada, veja você. Como um apagar de luzes.
Ou um acender de luzes, digo. é.

E aí me perguntaram, aquele teu amigo meu amigo, não tão meu amigo digo, ele me perguntou, perguntou alguma pergunta típica qualquer sobre eu e você, se isso já existia, eu acho, essas coisas, não lembro bem, era tudo tão recente. Não quis dizer um claro que não, né, foi uma coisa mais prudente, mais pé no chão, bateu uma fraqueza qualquer, um receio. Pode ser que sim ou que não, digo. Há sempre uma possibilidade futura, mas. Pra não forçar muito um não que eu não quero dizer que existe (porque também não sei ainda, você sabe?). Até porque é tudo meio que não existente ainda no momento eu creio. É tudo no plano possível, no deserto do irreal. A gente pensando que sim ou que não, existe ou não existe. A ligação é falha, fraca, ainda engatinha. Eu meio que respondi a ele que, respondi que há sim um grande espaço entre nós dois a ser consumido. talvez. Aos pouquinhos né, de leve. Tem sido assim, aos pouquinhos. Devagar. Saboreando a distância, as possibilidades. Não que a gente esteja querendo chegar lá no nós, na quebra da individualidade, mas enfim.. A graça é se deliciar nesse espaço entre a gente. Brincar com a liberdade de ser. Porque ainda é você e ainda sou eu, sem ser eu e você, sabe? E a gente se gosta assim, eu sendo eu e você, você. Sem cansar de ser como a lori cansa. È um pouco receio também, acho. é. De se perder e ficar no vácuo. sim, sim. difícil se achar depois de se perder assim sem saber aonde se vai direito, melhor saber pra onde se vai. é. E a graça às vezes é só brincar de ser sem ser.
Mesmo que acabe não sendo muito no fim.
Porque eu sei que você gosta de brincar, só de brincar, sei, sim, é. eu vejo, noto, transparece. é, claro. mas para por aí. O medo, o receio enrustido é ainda maior, né? Rejeição, sim, claro, como não? como em todo mundo. Só que maior. Mais valorizado, creio. transparece pelos poros e só por eles. E no fim isso cria, acaba criando uma bifurcação natural, sabe. no caminho alheio (no meu por exemplo. Bifurcou-se. foi.).
gera desconfiança, acho. sim, eu sei que você sabe disso também.
Talvez seja melhor ir logo de cara, mas nesses cassos nunca se sabe, ou se sabe?
Eu nunca sei.
Você muito menos.
Medo também ta dentro da lei da atração. é.
também se vende.

Pensar que dá última vez foi assim, me perdi logo de cara, feio e sem saber, por acaso, e aí quando dei por mim já tinham passado uns bons meses quase e eu já não tava mais em mim, e eu sei, é bom até, confesso, se perder assim, sem ver pra onde vai, perigoso, sim, mas é bom, muito bom, só que aí passou, de forma abrupta, como sempre (com muitos solavancos, dessa vez, sim, foi), e fica muito, muito difícil se achar depois, essa é a parte ruim, sabe, você fica no vácuo, lá perdido algumas semanas ainda sem ser você, nem lá nem cá, querendo continuar por lá sem poder, querendo voltar pra cá sem saber pra onde vai, até que os planetas se alinham na hora certa e tudo se encaixa, sabe, você volta pro corpo e se enxerga de novo e ufa, enfim;
Lucidez.

É meio como ressaca.
Tem uma hora que o desespero termina sem fazer barulho, aviso nenhum, sem aviso, o mundo para de rodar, tudo se alinha, os órgãos se encaixam no corpo de novo e você respira fundo e aliviado e sorri pra você mesmo que lhe sorri de volta. é. é sim.

Agora chove. Chove muito.
Lugar-comum dizer que é reconfortante. mas é. reconfortante. é. terapêutico.
Só o barulho já conforta bastante. Você nem sente, nem vê a coisa em si, mas o barulho da chuva traz um certo frescor interno, o corpo respira melhor. todo ele, sim.
(os poros viram narinas).

Puxa pela memória eu acho, sabe?
Aquela coisa de criança quando chuva era algo que a gente corria para e não de.
Tudo memória.

Sartre dizia com outras palavras isso, mas a única coisa concreta é o passado.
Que tudo bem, pra memória nem é tão concreto, a memória é uma ilha de edição, já dizia o Wally.
Mas o Ser e o Nada é isso. é. O mundo externo da gente é o tudo, o concreto. A gente nasce como um Nada, um vazio, e aí a gente se move pro tudo e vai construindo alguma coisa em si, “um passado” que é o SER em si, definitivo. O que fica de concreto no mundo concreto. E enquanto não “fica” definitivamente, é passível de mutação.
Tipo uma esponja, ou um filtro melhor dizendo. Algo amórfico, penso.

Porque a gente se move pra si também, você sabe, e é por isso que não é lá uma coisa muito concreta até que se termine, enfim.
Por isso que é tão instável.
A gente se cria um pouco também, toda hora.
De ilusão, ou melhor dizendo, de si mesmo.
Tem uma consciência da consciência. Sabe?
Um espelho mental projetado que a gente tenta seguir, ou pensa que segue.
A memória no fim das contas é isso, é um passado reinventado da consciência de si,
um passado que se refaz toda hora.
É o SER que a gente queria ter sido e que não foi, ou que foi mesmo,
de uma certa forma foi, não foi?
Na memória ta lá, ta tudo lá, recortado e devidamente editado,
então depois de um tempo sem ter sido, acaba passando a ser.
- e a chuva alivia a memória, cabe dizer.

Conforta essa coisa de ser mais nada do que tudo, essa coisa remota e livre de se jogar no mundo sem precedentes de nada. Toda ação íntima e sincera é sem precedentes por mais que já tenha acontecido zilhões de vezes.
E tudo é novo de novo na chuva.
Tudo é nada, é o zero, a morte. é o reboot da alma.
to begin again from the beginning.
Lavou ta novo, já diziam.


Lembrando dum verso do Leminski: Haja hoje para tanto ontem. É bem por aí. Sintoma de velhice, será?
Não. De vivência, melhor dizer. vivência. é, pouca, mas há. vivência concentrada.
E eu queria poder dizer: Haja chuva para tanto ontem.
Ou acha hoje pra tanta chuva.
Enfim.

Cabe perguntar se o universo tem só um verso? Ou existe um verso do uni-verso?
Acho que não né. esquece, esquece.

E essa vontade de escrever que não passa nem se concretiza... nada de concreto aqui, eu sei, não me iludo, nem você também, espero. Queria ser que nem o Vinicius. é. queria. Viver pra escrever, pra tocar, pros amigos, pro whisky, pra casa aberta, pra paixão, pra buscar sempre achar aquele cheirinho de livro novo da novidade da vida,viver no momento-já da água-viva da Clarice, viver e saber ler aquilo que ta bem atrás do pensamento, nas entrelinhas, no eterno arrebatamento entorpece.dor daquela primeiríssima namorada viva em todas as outras que vem e que passam. Aí sim ia ser bom escrever, sabe. Ter tempo pra isso, pra me perder nisso, viver PRA isso.

Agora eu vejo e já são 2:20 da manhã. Madrugada alta e calada. (a madrugada conspira)
A chuva parou e o alívio do início do texto foi junto. Só consigo dormir depois das 3, sabe. Muito raro antes. é. Muito, muito raro.
Só quando o cansaço puxa pelo pé e sufoca a gente de sono.
E amanhã trabalharemos todos. Agora é assim, né, a gente dorme pra acordar cedo e ir estudar e ir trabalhar e chegar em casa e dormir e sonhar que ta trabalhando.
O mundo é assim agora, trabalhe estude e depois viva, se tiver tempo e disposição ou os dois.
Enfim.
Morrir tentando viver.
Lembrando do Chico falando do Vinicius, no documentário Vinicius, que não saberia onde taria o Vinicius no mundo hoje em dia, sabe? Não tem lugar mais pra Vinicius no mundo. O mundo é incompatível com Vinicius.
Se bem que, se Vinicius nasce de novo uma parte do mundo acho que se torce, vira, quebra no meio, vibra e se transforma pra acompanhar Vinicius.
O mundo do Vinicius. O mundo é mutável também, em alguns casos. é sim.
Por isso que eu queria ser Vinicius. queria.
É o meu alter-ego, minha vontade filantrópica de mudar o mundo.
Talvez não o Vinicius “Vinicius”, mas o Vinicius falado pelo Chico e pelos outros também, pode ser, é, pode ser sim.
Porque a vida só se dá pra quem se deu. é.
E porque é preciso que eu não minta nunca pra poder dormir.

E eu duvido que alguém algum dia alguma vez na vida tenha alcançado em algum instante-já o estado de graça sublime euforicamente silenciado pelo momento em si bem atrás do pensamento, que alguém por algum segundo sequer tenha virado água viva como eu virei há alguns instantes atrás. Um prazer sem fim, um gozo da alma intraduzível. Incompatível com palavras (se bem que agora o momento citado se torce, vibra, entorta, quebra e se adapta a elas, palavras).
E dizer que água viva fui eu no exato momento em que li água viva.
Conspirações cósmicas ou afins.

È assim: Como se alguém tivesse escrito há 50 anos atrás, num pedacinho de guardanapo, qualquer frase do tipo “Olhe à sua direita” e 50 anos depois essa frase fosse voar para a minha mão no meio da rua e eu olhasse a direita e fosse atropelado e toda a minha vida mudasse naquele momento.
Atropelamento é isso. Evitável, mas então já era, um segundo de distração e você que fez acontecer e já virou pedaços, pedacinhos de você mesmo. É incrível. pois é.
Bem como viver o que ia sendo lido no momento exato em que eu lia e via que a pessoa 50 anos atrás tinha vivido exatamente aquelas mesmas coisas que eu vivia e lia e que eu fui descobrindo as mesmíssimas coisas na sincronia exata em que a leitura prosseguia. Sabe?
Na mesma progressão que minha vida caminhava, no mesmo ritmo, caminhava também a vida ou o pensamento daquela pessoa que escreveu aquelas palavras impressas 50 anos atrás. As mesmas aspirações ao mesmo tempo da mesma forma com o mesmíssimo desfecho, ou quase isso, pelo menos. Quase isso.

Como ler o que você ta vivendo, ler sua vida, um segundo antes de descobrir por si só o que você acabou de ler. Só que da pena de outra pessoa com 50 anos de distância.
Conspiração cósmica ou divina. ou o ciclo natural da coisa. enfim.
É meio assim:
O tempo de uma vida toda só de elucidações feitas pra você.
Uma vida inteira servindo pra te acordar. Pra acordar a todos, digamos.
E a gente constantemente acordando um pouquinho mais, sem voltar.
Waking life. sim.

(E quando as entrelinhas da vida finalmente se tornarem mais legíveis, se deixar ser atropelado simplesmente não será mais o bastante. é.)

Mas enfim. Voltou e parou de chover várias vezes e eu fiquei aqui olhando pro vazio do papel em silêncio. Tanto olhei pro vazio que não sinto mais nada, nem sequer vontade de escrever, só o vazio. O vazio atrai o vazio, feedback negativo. A lei da atração mais uma vez, a explicação cósmica de tudo. (rá!). Queria só dizer uma vez pelo menos, só uma vez, aqui dentro já que fora do papel não tem como (não há espaço) que uma leve sensação de arrependimento me invade de vez em quando, sabe, vem do nada, do vazio, desse mesmo vazio de agora. Bem de leve, mas. Não culpa minha. A impulsividade ainda me leva ao suicídio. A impulsividade e a bebida, que impulsiona a minha impulsividade. Não que seja a causa de tudo, não. Longe disso é verdade.

Nem de tudo me arrependo também, na verdade, pensando bem, não é bem um arrependimento, veja você, é algo bem próximo de, uma leve sensação de perda, melhor dizendo, uma ausência pressentida. Foi tudo muito bom depois, sim, sim, muito bom pra se arrepender de qualquer coisa. Não sobrou espaço pra isso. E é bom ter atitudes impulsivas e sinceras de vez em quando, isso diz algo sobre você.
Um nenhum cem mil. é.
Às vezes choca, mas enfim. Foda-se. Contanto que não seja lá muito nocivo... se não enlouquece, né? mas foda-se mesmo assim. Prudência demais dá câncer. dá sim.
O importante é saber na hora da bifurcação pra onde o nariz aponta.
E aí você foi sincero, creio, independente das conseqüências você foi por onde queria ali naquela hora e arcou com tudo, não tem espaço pra arrependimento. Espaço nenhum, creio.

Menos ainda quando a escolha foi certa, né. eu acho que foi. Foi, foi sim. muito foi.

Há agora – arrependimento - mas é por outro motivo sabe?
Porque nisso tudo, algo se perdeu no caminho, sim, ficou vibrando no ar, intacto, indecifrável.
um não sei o que que faz uma falta qualquer.
Foi tudo muito rápido, muito definitivo, e tinha algo, tinha algo que, alguma coisa que não precisava ser desperdiçada. Desperdício, essa é a palavra. Essa é a sensação. isso.
- Diga não ao desperdício emocional, ou algo por aí.
Não abrir mão de tudo por tudo, digo, saber triar as coisas melhor. sabe? triagem.
Porque prudência de menos também dá câncer. dá sim.
E é muito válido ir devagar pra sair levando o que importa, muito válido. sem pressa.
Olhos abertos pra todo mistério, porque cada vez fica mais difícil sabe? mais escasso isso tudo. E quanto maior a escassez , no final das contas, maior o preço. Mais valor você dá. é. fica tudo muito caro, no fim.

Enfim, ser menos extremista, essa coisa jovem e burra que mata ou enlouquece meio mundo de gente antes do tempo sem nenhum motivo real ou aparente.
Tudo exagero, veja bem.
Tudo piada, tudo teatro.

Em outras palavras: Se eu quisesse, pudesse ser alguma coisa na vida, qualquer coisa, eu me imagino dentro de um enorme campo de centeio andando na margem de um vasto precipício enquanto no campo correm, voam e giram desordenadamente todas as pessoas que de alguma forma me alimentam e me são caras e agradáveis e interessantes e me instigam na vida de alguma forma sabe, e tudo o que eu faria, tudo o que eu faria seria passar a tarde correndo e voando e girando desordenadamente com elas, morrendo junto aos pouquinhos, e sempre que tendessem ao precipício, sempre que chegassem perto, eu deveria correr e apanha-las antes que caíssem, seria o apanhador no campo de centeio e tudo.
Mas pra sempre não, não toda hora. só durante a tarde.
de noite eu iria pra casa e dormia. é.

Em outras palavras:
É como num livro, num bom livro.
Se você lê muito rápido pra chegar logo no fim fica sempre aquela vaga sensação de que deixou algo escapar,
de que algo ficou no caminho.
nas entrelinhas, digo.

















C l e a n.