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Sexta-feira, Dezembro 22, 2006 (8:01 AM)


A aguardava no piso do elevador um pouco além da entrada do seu quarto de onde havia acabado de sair, já pronto e lá a aguardava fazia já alguns minutos. Não se podia dizer que era bem um elevador, pela arquitetura do prédio, veja bem, era mais um andaime gigante no interior da construção, bem no centro do edifício, um terminal flutuante que ligava os diversos andares. Não havia paredes entre os corredores e tanto o piso como o teto eram gradeados, de modo que podíamos dizer que se tratava de um elevador bastante panorâmico. Alguns cômodos tinham até a sorte de estarem para o lado externo da construção, de tal maneira construídos que não necessitavam paredes além da porta que dava para o corredor, eram completamente virados para o vazio.
Pensava no azar de não ter conseguido um daqueles cômodos abertos quando ela veio surgindo à minha frente sorrindo, vestido vermelho e uma fenda na perna direita que me gelou da unha à raiz do cabelo. Enquanto aguardávamos o elevador, explicávamos para um vizinho que terminava de se arrumar e cuja porta estava aberta, como se dava o forró ali no Bar do Zé a não sei quantas milhas de distância, o que no fim muito lhe agradou já que estava em dúvida se não seria melhor arriscar um filme. O Bar do Zé era o único ambiente do universo bem freqüentado para solteiros, digamos dessa maneira. Indicamos um conhecido que também ia, ele agradeceu.
Chegado o elevador subimos com mais umas 60 pessoas. Logo pela altura do 120º andar já dava pra visualizar a multidão que se aglomerava em filas para o cinema, estréia de um grande filme desses de ação, não sei bem ao certo. A tensão subia junto com o elevador, pois o nosso andar era logo acima do andar dos cinemas, o qual por sinal era o último andar, o que fazia então do nosso andar a cobertura. Subimos tensos pois a chance da fila se prolongar até o nosso andar era enorme, pois nosso andar era quase todo deserto, veja bem. Se tratava do único Motel dentro de todo o prédio, convenientemente construído no último andar. Uma única entrada no piso deserto da cobertura parecida com uma caverna iluminada para um corredor, este sim, com muitas paredes, que davam nos inúmeros quartos de motel. Como um pequeno labirinto.
Subíamos e cada vez mais se confirmava que a cobertura estaria lotada de pessoas em filas descendo para as escadas que levavam ao cinema. Quando chegamos à cobertura sequer conseguíamos achar a entrada do motel. O barulho era tanto que confundia o pensamento e para piorar o incomodo percebia-se a tensão alheia de aguardar o cinema na entrada do motel. Brincavam entre si, os conhecidos, ¿indo pro motel com os amigos¿ quando pelo jeito apenas nós, eu e minha namorada íamos realmente para o motel, e lá ficamos ainda algum tempo, juntos e parados na entrada do elevador, como quem fica no fim da fila mantendo distancia, aguardando que a multidão diminuísse um pouco, e realmente, passados alguns poucos segundos a fila foi descendo com rapidez e nos vimos quase sozinhos na porta da caverna, o que pra mim foi uma surpresa considerando que eu acreditava que só nós estávamos com aquela intenção secreta de ir no motel e não no cinema. Fomos caminhando silenciosamente lado a lado para a entrada da caverna, rapidamente e sem se olhar, acredito que pelo embaraço que a situação proporcionou, eu um pouco mais a frente, ela do meu lado com o passo um pouco mais atrás. O incomodo piorou quando avistei um colega de trabalho que vinha saindo e me olhava um olhar estranho e que eu não entendi na hora pois passei direto e só um pouco a frente vim a compreender, quando notei antes de dobrar uma esquina já dentro da caverna que andava sozinho. Olhei ao redor e nada, estava só. Notei então que não sabia a quanto tempo já andava sozinho. Até que fitei confuso o meu colega de trabalho que ainda se avistava na entrada da caverna e me aliviei, pois ele olhando para o outro lado da entrada sorria para mim como quem acabava de entender uma piada sem graça. Minha namorada caminhava a passos pesados em minha direção, enfurecida. Onde é que você tava? Perguntei docilmente ao que ela respondeu com um grito indefinido e agudo que me cortou a pele inteira do corpo. Entramos rapidamente na última suíte do corredor e mal havia fechado a porta ela começou a gritar enlouquecida sem se fazer sentido, até que deu pra entender o que ela dizia mesmo que não desse pra tirar sentido das palavras ainda. A frase QUEM É AQUELE SEU AMIGO, FRANCISCO? POR QUE NUNCA ME APRESENTOU? se fazia reconhecer repetidamente em meio aos gritos. Ahn, o que? Como assim quem é, como assim, você conhecia, não sabia, eu achei que tivesse apresentado... não sei, por que, explica, calma, que que tem o Francisco, o que ele fez... E então mais grunhidos inidentificáveis, e uma loucura e lágrimas que lhe tomavam a face e agora só chorava com um raiva que me congelou mais uma vez a alma da unha à raiz do cabelo. Dizia que não tinha feito nada, que não era sobre ele e que iria terminar, que não tinha mais sentido, chorava e gritava que agora era definitivo e me apontava o dedo. Peguei uma garrafa de vodka russa do frigobar, absolute, tentei lhe segurar, calma, argumentar o que foi, que que houve, me explica, calma, bebe um pouco... Não, não fazia sentido, como tinha lhe dito há algumas horas apenas uma amiga, que era uma puta falta de respeito minha com ela e aí então meu sangue gelou de raiva, e eu já não agüentava mais tanta incoerência e injustiça, como assim, o que foi que eu fiz? Não fazia idéia do que se tratava o que tinha a ver meu amigo e suas amigas com toda essa raiva e por que não me explicava o que tinha acontecido, alguma coisa qualquer que fizesse sentido e me desse alguma chance de me defender. Já eu também chorava e chorávamos os dois, perguntei o que o canalha do meu amigo, que nem amigo era, conhecido, o que o canalha do Francisco havia feito que eu iria lá atrás daquele filho-da-puta, mas então ela nada, só apertou minha mão e chorava um choro de outros assuntos que já nem sabia mais quais eram. Eu tentava lhe segurar e por um pouco de sentido nas suas palavras e ela se desvencilhando e a vodka já virava em nossas cabeças pois eu já havia perdido o controle da garrafa e nossas roupas grudavam molhadas em nossas peles negras que queimavam com o álcool. Um banho, calma, um banho para tirar o álcool que queimava a pele e eu já não agüentava mais de ardor. Ela se acalmou, embora ainda soluçasse de tristeza.
Abrimos a porta, empurramos um desconhecido que ouvia preocupado os gritos do corredor, talvez o gerente, e entramos no banheiro externo. Daqueles sem paredes, para o vazio. Nada além do universo ao redor. Abri o chuveiro e ficamos ainda ali parados, soluçando em silencio, olhando as estrelas frias e distantes e pensando em nada. Então entramos debaixo do chuveiro na água gelada de reconciliação que descia pelas nossas cabeças sussurrando paz e por lá ficamos, lavando os pensamentos sem sentido e os pecados passados da alma...













C l e a n.