Contracorpóreo
O corpo aos poucos ia arquitetando sua própria contracultura.
Os olhos verdes, agora fixados nos olhos do rótulo da cerveja, rotulavam entre a garrafa e os outros pares de olhos que lhe videavam casualmente, aqui e ali, entrepapos.
Os pés descalços sapateavam involuntariamente debaixo da mesa, a brincar com a areia úmida, a pisar na vaidade sóbria, enquanto que
a boca bebia suavemente de sua cerveja gelada e soltava aos poucos
o sorriso e o riso, e o riso.
De súbito, os olhos pararam involuntariamente em
outros olhos, estes castanho-escuros.
Coisas do magnetismo ou da embriaguez.
A cabeça então sacudiu-se levemente, tentando dissipar a tontura.
O quadril, decidido a levantar, empurrara suavemente a cadeira para trás, enquanto que, de maneira brusca e descordenada,
os joelhos impulsionaram o corpo para cima e se não fossem
as mãos, sempre cegas a tatear a mesa e a se apoiarem a ela no último minuto,
o corpo por certo cairia, junto com a cadeira que caíra surdamente à areia,
como um corpo morto cai.
Desfeitos do susto e de volta às sandálias,
os pés tomaram seu rumo errando pelo bar e disfarçando o cambaleio incerto no ritmo do samba que impregnava os ouvidos e a rua - se não o quarteirão inteiro. As unhas compridas desabotoaram o short com uma certa dificuldade,
ao entrar no banheiro, e, abaixando a calcinha até
os joelhos, sentou-se sem pudores num daqueles vasos imundos em que ninguém ousa sequer encostar.
Os pés fugiram das sandálias mais uma vez e encontraram o chão úmido e sujo. Deliciou-se em se aliviar do excesso daquele líquido quente por alguns segundos e permaneceu ali sentada por mais algum tempo indefinido,
os pés a acariciar o concreto molhado.
A sordidez do momento fascinava-lhe a ebriedade da mente.
Assobiava olhando o vazio e sua mente vazia não conseguia pensar em nada, absolutamente nada,
e sentiu-se feliz, verdadeiramente feliz, leve e absorta numa felicidade branda e suja, incomoda e deliciosamente suja, enquanto que ao mesmo tempo
a mente vagava pura e sublime entre toda a sujeira e podridão que lhe censurava a alma.
Estava então por um curto momento liberta dos seus preceitos morais, das regras sociais que lhe foram impostas, das suas auto-censuras, da sua infelicidade consigo mesma.
Levantou-se enfim, sem se limpar, embora houvesse papel, e vestiu-se devagar, transgressoramente devagar, saboreando aquela vaga satisfação pessoal de deleite íntimo e proibido, e assim foi saindo, um pouco menos presa, um pouco menos pesada, um pouco menos confusa.
Virou-se ao caminho de volta, ainda alheia ao resto do mundo, e já na saída do banheiro lá estavam
os olhos castanho-escuros, a lhe esperarem, a lhe penetrarem, a lhe penetrarem
a alma hipnoticamente e de repente foram só flashes,
como num filme cortado ou como um trem a empurrar-se por um túnel,
os beijos e passos firmes a empurrarem
os seus passos e lábios incertos,
a lhe atropelarem por inteira e lhe dominarem os braços,
como uma onça em cima de uma presa, os braços levantados e presos, completamente inanimados, entregues e indefesos,
propositadamente indefesos, o cenário a mudar,
as costas encontrando uma parede qualquer e num vacilo da sandália
lá estava de novo o chão úmido e podre e a falta de luz e o fedor que denunciavam seu regresso precoce ao banheiro e então
foi tudo muito rápido, os beijos, os sussurros, o delírio, o calor, o êxtase,
e num instante já estava no chão,
e já não via mais nada
e já não sentia mais nada,
apenas deitava no chão frio e imundo de um banheiro podre qualquer, inconsciente num banheiro qualquer,
completamente inconsciente como que desfalecida,
apagada no amparo de uns olhos castanho-escuros assustados e
de um par de lábios que tentavam desesperadamente lhe reanimar,
mas só no outro dia viria a recuperar os sentidos, só no outro dia,
deitada nos lençóis brancos e limpos de um hospital público qualquer,
com uma agulha na veia e um alfinete na consciência pesada,
a lhe cobrar respostas que não tinha, que não tinha na sua memória fragmentada, que nem mesmo imaginava ter.
Sofreria desse vazio, dessa incerteza por ainda mais alguns dias,
e aí então voltaria à sua rotina, às suas cobranças pessoais, aos seus escrúpulos
e preconceitos minimamente aturáveis,
aos seus preceitos sociais tão logicamente justificáveis e óbvios e corretos,
à sua incapacidade de quebrar o design de sua própria vida,
do seu próprio destino, voltaria à sua ignorância a respeito do que seria a tal indefinida felicidade dos tantos filmes e livros e histórias que ela achava que conhecia,
do que era liberdade e espontaneidade de fato,
do que viria a ser o bliss,
o bliss intraduzível do qual só se ouvia falar por aí,
sem nunca vir a saber que por um momento perdido o soube,
que por um momento qualquer o teve.
Domingo, Junho 05, 2005 (4:09 AM)
a outra:
23 anos mal-completados e um parecer na cabeça, saiu decidida descendo rapidamente as ruas pobres daquela cidade antiga, as casas ao redor lhe zombando com sua beleza indiferente tão enferrujada que fedia. E assim sentia-se, com a beleza escondida por sob ferrugens encardidas que lhe foram dadas tão sorrateiramente que só agora havia se dado conta de que não mais se via diante do espelho da memória, mas a um emaranhado de peculiaridades alheias. Como uma colagem e sabia agora que esse era o motivo daquele seu parecer repugnante - tido num confronto com o espelho do banheiro -, 23 anos na cara, um sorriso de 23 linhas e sem saber como em tão pouco tempo alguém pudesse se perder tão completamente de si mesma. Culpa-se a hiperatividade, geração zap, mas ela sabia que não podia culpar a ninguém que não aquela que lhe imitava o sorriso todas as manhãs. Estava condenada a si própria, era uma das poucas certezas que lhe dava a sua fraca consciência. Mas quem era ela, além da pele mulata, dos olhos vermelhos, 23 anos perdidos e um passado tão estranho quanto miúdo? Não, não, não era ela. Não podia ser, era alguma outra qualquer que se perdera e só isso, era só isso. - "Coitada, a outra, perdida...". Pra onde teria ido? Nenhum remorso, porém. Recordava aquela vida distante, as infantilidades - as crueldades da infância - comida ruim no colégio, amigos de fachada, pais de novela e vidinha de comercial de sabão em pó, mas consigo mesma até que vivera bem aquela outra. É, sim, mas e ela, quem seria? Sentiu que começaria ali do zero, uma ninguém, recém-nascida do espelho como se houvesse pulado para o outro lado da moldura refletida, seria agora ela quem quisesse, parida de seu próprio umbigo, numa iludida certeza de que estava sim condenada a ser livre, mas já não podia voar, já não havia mais ruas por onde descer, de tão cega a descida que empregara havia agora chegado a um beco sem saída e no final lá estava ele, o espelho, o onipresente espelho e lá estava a outra, a outra com a sua vidinha perdida presa do outro lado e conseqüentemente lhe prendendo pelo reflexo, presa pelo reflexo da outra, não, não, não havia mais para onde correr, não havia sequer se perdido como imaginara, mas sim, estava lá, lá condenada, condenada ao reflexo de si mesma e estava certa a sua consciência, certa como sempre, como toda a matemática e as ciências exatas, como toda e qualquer consciência e se não mais era livre ao menos não mais se sentiria perdida, não mais se sentiria deslocada de sua própria vida, era agora ela e era a outra, numa completude precoce, aos 23 anos, numa completude precoce que fugiria até das pseudo-análises do seu conceituadíssimo pseudo-analista e das filosofias baratas que lia em seus livros caríssimos da faculdade, agora não mais as revoltas contra o reflexo, não mais as dualidades conflituosas, nunca mais a dicotomia, agora era ela uma só, e era só, e era só.



