pulei no momento exato em que o nosso chão rugia como o leão de todas as fomes vazias e em que o vazio faminto do nossos abismos crescia e engolia todo o espaço do chão rugindo sob os meus pés, pulei e me vi por sorte preso na argola do piercing da minha vaidade que foi me levando em suas asas lânguidas através das nuvens rosadas do pôr-do-sol da tua cama, por entre quadros monocromáticos e um cinza claro que dava cor ao vento que nos empurrava, a mim e à minha vaidade. Não cheguei a me dar conta na hora, mas depois reparei que você ainda estava comigo e que teus cabelos rebolavam suavemente ao som da billie holiday que tocava no stereo da minha cabeça, como que se respondessem a mim, como se me pertencessem por conta de algum encanto químico qualquer. Não me deixe só então começou a destoar na voz da Vanessa com seus primeiros acordes e com você pulando fora imediatamente, à procura de beijos intermináveis e outros amores possíveis, enquanto que a correnteza do teu vácuo me puxava de volta ao vazio de sempre estar só com você e de nada eu lembrava quando levantei para escovar os dentes arrastando a escova contra os lábios na manhã seguinte, de nada lembrava além de um rancor incriado que se manifestava através de uma mancha colorida e que me vinha no universo da escuridão dos olhos fechados, mancha amórfica, out-of-focus, resquícios de alguma luz, pistas de algum talvez. No começo foi como uma batalha irracional, brincar de dar moldes ao incomensurável, tentar pegar o vento com a rede, a orelha com o rabo do olho, fazer esculturas com uma poça d'água. Depois, uma compreensão que me bateu no cansaço de procurar sentido no ilógico dessa nódoa mental, compreensão de que o sentido era não ter sentido, de que a deformação era por si só auto-explicativa, nada além de um ponto de referência, uma cicatriz que remete ao seu acidente ou um dejà vu repetitivo, pesadelo de infância impossível de lembrar, mas que ainda me aflige nas horas incertas, nos pensamentos involuntários de você. Como um repúdio ou defesa natural do meu sub-consciente ao doce da tua ausência amarga...
Sexta-feira, Abril 08, 2005 (10:35 AM)
Desocupava com o dom de se iludir a hora seguinte, como que desbravando densas matas-atlânticas com um facão, abrindo caminho para que a ociosidade tomasse conta e se espreguiçasse, derramando-se no corredor do tempo vazio que a sua 'retórica da conveniência' destrutivamente construía. Projetava-se para aquém de seus projetos, espremendo estes num beco futuro, enquanto permutava os valores desse ou daquele compromisso, desmistificando a realidade do minuto passado numa certeza esquizofrênica de que a lógica era submissa à sua razão. À parte de tudo, como num barroco harmônico e bem-resolvido, dois sentimentos paradoxais se transavam amorosamente em sua consciência, como que dando sentido ao demônio de Milton e ao seu paraíso perdido e à sua sintaxe transformadora de mundo, ora, se não era tudo enunciação?! Seu bel-prazer mais primitivo em primeiro plano como num refluxo de prioridades e a sua conspiração contra si mesmo a favor da prolongação de seus atrasos. Indócil sossego e um mórbido deleite nos prazos que aos poucos iam lhe apertando e um fascínio niilista com o desespero de sua responsabilidade abafada. Como quem sente agrado em desperdiçar todo tempo útil possível ou é aficionado na adrenalina dos minutos urgentes...



