É como se a nossa vida fosse um imenso quebra-cabeça de 500.000 peças sem uma imagem nítida da mesma para montarmos. E, ao invés de termos a paciência de ir procurando seguir uma seqüência lógica a partir dos pequenos quebra-cabeças do dia-a-dia ou das referências maiores que nos foram dadas, fossemos encaixando peça com peça aleatoriamente, sem sequer olhar para o tabuleiro e ver se os fragmentos de imagem se complementam. No final o que temos é uma grande figura amorfa, sem sentido e danificada. E não é muito difícil, veja você, é tudo uma questão de paciência e percepção.
E é assim com a nossa vida amorosa, creio. As pessoas vão se agarrando umas às outras por puro prazer temporário - e insatisfatório, diga-se de passagem. Como se cada momento partido da vida fosse uma unidade em si, tivesse um sentido próprio separado do resto (E não tem. Não é). Como se vivêssemos fragmentos de vida. Sem seqüência lógica ou conseqüência qualquer. No final não nos tornamos uma pessoa completa, um ser em si. Mas fragmentos de. Entenda-se: A liberdade sem responsabilidade é autodestrutiva. E não há doença, não há suicídio, parricídio, violência, absurdo qualquer no mundo que pareça fazer a humanidade acordar...
Afinal, o que será que tornam tão populares a depressão (você já se sentiu vazio?), a AIDS (já teve medo? fez o exame?), o suicídio (conhece alguém que?), ou mesmo o índice de divórcios nas sociedades hoje em dia? É bom parar e refletir. Enquanto há vida, há tempo.
Pois a dificuldade maior, segundo me consta, é pensar por si. andar sobre a maré. Muito difícil você buscar um caminho que difere do das pessoas a sua volta, do que lhe empurram a caixinha mágica da TV e do computador. Muito difícil se manter. Se você não tiver um norte, uma base muito segura, ou uma personalidade bem definida, a tendência é que você se misture. Que você seja sugado. Começa com as pessoas de quem você gosta... E aí você vai se deixando levar. É cultural, veja bem. Aos pouquinhos, um detalhe aqui, outro ali. Não há sequer como definir quando se torna normal. Uma vida aos pedaços. Aos frangalhos. Multifacetada. Vida Líquida, como diria Bauman. As lacunas se espalham e você passa a se sentir vazio.
Mas acredite quando eu digo (e não fui eu quem disse primeiro): Só os radicais que souberem nadar contra serão felizes. E inteiros (Leia-se íntegros).
Sábado, Julho 19, 2008 (2:05 AM)
e lá foi-se num sopro pesado desprendendo-se dos galhos à sua volta enquanto que inutilmente tentava amarrar os cadarços dos velhos sapatos, mas cega de amor simplesmente não enxergava os passos cegos que dava e ao mesmo tempo em que ia, em que ia, ao mesmo tempo em que, ao mesmo em que ia voando e tropeçando em soluços, ao mesmo tempo em que ia, tremia, e tremia, e tremia por cada lágrima que rolava aridamente dos seus enormes olhos tristes de jabuticaba,
olhos gordos de sono e inchaço e cinismos sinuosos,
tremia e tropeçava,
e caía, e chorava,
e ria e caía e gozava.
mas pararam-na, ou simplesmente cansou.
Então tirou a roupa rasgada e jogou fora as lentes descartáveis que grudavam em suas retinas áridas teimosas em secar.
Enfim podia banhar-se em sua banheira entornando de aveia e farinha láctea e leite puralac e comer-se mergulhada nessa sua prestigiosa papinha branquinha e pastosa feita com todo o carinho pela mamãe.
"nada melhor do que se decompor em seu próprio ritmo" pensou, voltando a morrer.
e foi afogando-se num suspiro lento e prolongado enquanto que por reflexo tirava mais uma máscara e a jogava no vazio para não perdê-la consigo de novo,
para não mais ter que procurar quando voltasse,
jogou-a no escuro e apagou as luzes da escuridão,
perdendo-se e deixando-se perder
na futilidade óbvia do amor,
um lado solitário o outro multidão,
um lado solidão o outro farto de saudades,
paixão e cansaço,
cara e coroa,
jekyll and hyde,
yes!
nós também temos o nosso halloween...
baby, blow me away
soft, like I was yesterday.
sweet and painful relief...
feeling alone equals lack of intimicy.
me sopra da tua boca frouxa num suspiro morno
como se eu nem fosse mais...
quem sempre te quis tão bem
trap me forever and more, love
in the little corner of your eye
like a lonely, lonely tear
that you've struggled to dry.
give it a minute, brain
a minute, so it can blow me away.
sweet relief of yesterday...
(another dime to drown the day)
como uma leve sensação de amnésia
rondando o meu dia-a-dia,
dos meus últimos dias.
como um leve esquecimento
sem por que
de si mesmo.
como uma fraqueza de certeza.
como uma fina sombra de
melancolia aguda.
como inconstantes ânsias alimentadas
por cada segundo que demora.
e a cada minuto, se devora
um segundo de universo paralelo
- de um amarelo universo paralelo -
de um complexo universo paralelo.
a cada minuto perdido,
um outro possível inexiste.
como uma leve coceira na alma
que se sente
mas não se alcança.
como uma vaga necessidade
de se cavar sem fim,
lá no fundo do mangue da memória.
de achar não se sabe o quê.
[...]
e persiste em existir
Uma lacuna que se expande
e nunca completa.
Porque sartre toca muito nisso no ‘entre quatro paredes’, na impossibilidade física de totalizar o outro, de conceber a diferença alheia em sua completude, no inferno dos olhares que nunca, nunca piscam e te revelam incansavelmente na estranheza que você vem a causar e que os outros te causam. Um espelho sem fim de tudo que não te pertence. etnocentrismo humano, individual, unitário. Partindo disso, me vem de repente a constante que se tem de se buscar sempre rotulações sociais, padronizar o incomensurável. De se classificar a humanidade em grupos, em símbolos (muitas vezes sem sentido), de se agrupar, se esconder e se limitar. e a questão que me vem é a de que eu também sou o outro, sempre, eu também provoco o mundo e não só o mundo me provoca, toda a questão da linguagem (sempre ela) e do diálogo (two way monologue). Interação. De que os grupos por mais seletos, são ilusões. Partindo pro solipsismo, ou uma fração aceitável dele (vertente filosófica que defende que a única realidade é a pessoal, interna e indivisível) você tem a problemática social da extrema individualidade: veja bem, somos condenados a solidão de nós mesmos, presos isoladamente em um corpo, uma ilha, impossível de ocupar o mesmo lugar de outro corpo, de se juntar em continentes, digamos. O meu entendimento de mundo irá diferir do seu entendimento de mundo, por mais próximos que eles sejam, por mais idênticos que pareçam. As experiências humanas são singulares, por mais que similares. constantemente buscamos a fuga dessa prisão de nascença, dessa prisão psicológica, construindo pontes na base da linguagem entre nossa ilha de emoções e conhecimentos e as outras ilhotas ao nosso redor, se igualando ou se assemelhando ao que os olhares “infernais” esperam que sejamos, procurando aceitação, acolhimento (a expectativa alheia. A expectativa é coisa do diabo.) A linguagem contudo é falha. Nunca se completa o entendimento, a ponte não chega por inteira, a flecha não vai no alvo. Quando eu digo amor, a minha idéia de amor, por mais que compartilhamos um mesmo conceito ou uma mesma ideologia do que vem a ser o amor, enfim, quando eu falo “amor” me vem junto toda uma série de experiências, leituras e interpretações que me são próprias e somente minhas sobre isso. O diálogo é um composto de idéias tangentes e perfeitamente perpendiculares, que vão e vem de um destinatário para outro, sem nunca se antigirem, nunca se baterem. Contudo, na nossa busca por entendimento, por completude, esquecemos de que somos também o outro, de que somos capazes de influenciar, de mudar a maré que nos envolve de forma totalmente singular. camuflamos nossa alteridade ao invés de exaltá-la. E aí eu chego no amor (linguagem exata, ponte definitiva). porque pra mim amor tem tudo a ver com linguagem, com atingir ao alvo que a linguagem propriamente dita não atinge. é sacar tudo sem precisar sacar nada e se fascinar com cada detalhe que você entende e não entende tão bem, compreender e ser compreendido não no diálogo, mas no íntimo, no âmago. Como se as palavras flutuassem não em linha reta, mas desordenadamente, se encontrando e se completando no vácuo das ilhas e criando uma sinfonia perfeita entre as diferenças dos que amam. É compreender na impossibilidade de compreensão. E esse santo graal do amor que todo mundo busca, esse se encontrar no outro, se ele se baseia na singularidade de cada um, no nosso ser mais sincero, no que realmente podemos impactar nos outros, nos aspectos fascinantes que a alteridade de cada um exalta por aí, não taria aí a explicação pra tanto amor mal-resolvido que existe no mundo? Pra tanta solidão? a não aceitação do outro que é você, de suas particularidades? a falta de linguagem perfeita (amor) entre você e você mesmo? de auto-entendimento? porque pelo que me parece, uma das grandes questão filosóficas é a impossibilidade de se quebrar o caráter dual das coisas humanas. Da grande divisão da alma, dos dois lados da moeda, de que há sempre um "outro", um "duplo" (artaud), uma sombra pra tudo. quando que, se aceitamos essa dualidade, e assim aceitamos o outro, o diferente, a singularidade nossa e alheia (e paramos de tentar nos assimilar para se integrar) aí há sim a possibilidade de se - não quebrar a individualidade - mas de se existir um solipsismo novo, um que seja possível e crível, a dois, uma singularidade compartilhada, amada e aceitada. Como uma simbiose ou duas celas carcerárias dividindo a mesma grade de barras de ferro.
Voltando pra Sartre, em o existencialismo é humanismo, pra fechar:
"estou obrigado a querer, ao mesmo tempo que a minha liberdade, a liberdade dos outros: não posso tomar minha liberdade como fim se não tomo igualmente assim a dos outros."
Terça-feira, Junho 10, 2008 (3:22 PM)
Se só me faltassem os outros, vá,
um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde;
mas falto eu mesmo, e essa lacuna é tudo."
(Machado de Assis)
Domingo, Setembro 16, 2007 (2:49 AM)
ou a crônica de um desvio abrupto
- Foi num vácuo da percepção, sabe.
Num segundo de distração, de silêncio mental. foi.
Minha indisposição refletiu de um plano cósmico a outro,
mudou de tom no vazio rarefeito do ar e sem motivo nenhum
esvaiu-se, desfaleceu-se, parou de vibrar, dissipou-se de vez.
Nada aparentemente especial, sabe, mudança brusca de humor.
- Amor, humor. (humor, amor, digo).
Pura vontade de mudar, acho.
Vontade não recente, não, de muito antes. é.
acúmulo de vontade.
Que foi sendo assimilada, assimilada
e aí já quase esquecida
aconteceu.
A lei da atração e tudo o mais o que se vende hoje em dia nos livros de auto-ajuda da vida (rá).
A “física da alma”. Tudo ilusão, sim pode ser e o que não é.
Basta fazer o efeito desejado sem comprometer a invenção da causa, a suposta lei,
é sempre assim sabe.
Num solavanco do ônibus tudo se encaixa. é.
A trajetória da rua que segue levemente obliqua, levemente puxando seu humor de um sentido no mundo a outro destino vagamente similar, sem que você note a diferença +
Leve mudança da posição do sol sobre você por culpa da rotação da terra e da obliqüidade da rua em que você segue =
Mudança da luz de norte a quase noroeste que acaba atingindo num feixe de raio luminoso único e despretensioso, desviado pelo espelho do retrovisor do ônibus, algum chakra qualquer adormecido há meses.
Sei que deu o alívio já há tanto esperado
e quase esquecido e acabou que foi,
foi bem ali naquela hora discreta e incerta
como qualquer outra hora discreta e incerta qualquer.
Sem explicação. Alívio sem aviso.
Ou o que quer que tenha sido, enfim.
O último segundo do desespero que passou do prazo de validade
e me abandonou num consciente estado de solidão,
solidão aceita como completude. plenitude, digo.
Tudo muito lógico, a lógica da alma, veja você. é.
Tá no Blues, sim, sim, blues, toda aquela poderosa liberação, elevação de espírito.
Desvios abruptos de emoção, o blues. Ou harmonia de emoções distintas, veja bem,
uma mudança em sintonia do estado sad sad lamento blues ao freeing spirit cântico febril soul-blues.
Porque o blues é libertador. É febre. sim.
- É cantando o mal que o mal se espanta, já se dizia.
É a libertação das dores da alma em ondas sonoras de emancipação.
E o soul também é. revigorante, melhor dizer.
Mas lentamente, gradualmente...
Comigo não, comigo foi tudo sempre abrupto - mas sem solavancos dessa vez.
Repentino, do nada, veja você. Como um apagar de luzes.
Ou um acender de luzes, digo. é.
E aí me perguntaram, aquele teu amigo meu amigo, não tão meu amigo digo, ele me perguntou, perguntou alguma pergunta típica qualquer sobre eu e você, se isso já existia, eu acho, essas coisas, não lembro bem, era tudo tão recente. Não quis dizer um claro que não, né, foi uma coisa mais prudente, mais pé no chão, bateu uma fraqueza qualquer, um receio. Pode ser que sim ou que não, digo. Há sempre uma possibilidade futura, mas. Pra não forçar muito um não que eu não quero dizer que existe (porque também não sei ainda, você sabe?). Até porque é tudo meio que não existente ainda no momento eu creio. É tudo no plano possível, no deserto do irreal. A gente pensando que sim ou que não, existe ou não existe. A ligação é falha, fraca, ainda engatinha. Eu meio que respondi a ele que, respondi que há sim um grande espaço entre nós dois a ser consumido. talvez. Aos pouquinhos né, de leve. Tem sido assim, aos pouquinhos. Devagar. Saboreando a distância, as possibilidades. Não que a gente esteja querendo chegar lá no nós, na quebra da individualidade, mas enfim.. A graça é se deliciar nesse espaço entre a gente. Brincar com a liberdade de ser. Porque ainda é você e ainda sou eu, sem ser eu e você, sabe? E a gente se gosta assim, eu sendo eu e você, você. Sem cansar de ser como a lori cansa. È um pouco receio também, acho. é. De se perder e ficar no vácuo. sim, sim. difícil se achar depois de se perder assim sem saber aonde se vai direito, melhor saber pra onde se vai. é. E a graça às vezes é só brincar de ser sem ser.
Mesmo que acabe não sendo muito no fim.
Porque eu sei que você gosta de brincar, só de brincar, sei, sim, é, eu vejo, noto, transparece. é, claro. transparece um pouco, mas para por aí. O medo, o receio enrustido é ainda maior, né? Rejeição, sim, claro, como não? como em todo mundo. Só que maior. Mais valorizado, creio. transparece pelos poros e só por eles, timidamente. E no fim isso cria, acaba criando uma bifurcação natural, sabe, no caminho alheio, digo (no meu por exemplo. Bifurcou-se. foi.).
gera desconfiança, acho, e eu sei que você sabe disso também, sabe sim.
Talvez seja melhor ir logo de cara, mas nesses cassos nunca se sabe, ou se sabe?
Eu nunca sei.
Você muito menos.
Medo também ta dentro da lei da atração. é.
também se vende.
Agora chove. Chove muito.
Lugar-comum dizer que é reconfortante. mas é.
reconfortante, digo, é. terapêutico.
Só o barulho já conforta bastante. Você nem sente, nem vê a coisa em si, mas o barulho da chuva traz um certo frescor interno, o corpo respira melhor. todo ele, sim.
(os poros viram narinas).
Puxa pela memória eu acho, sabe?
Aquela coisa de criança quando chuva era algo que a gente corria para e não de.
Tudo memória.
Sartre dizia com outras palavras isso, mas a única coisa concreta é o passado.
Que tudo bem, pra memória nem é tão concreto, a memória é uma ilha de edição, já dizia o Wally.
Mas o Ser e o Nada é isso. é. O mundo externo da gente é o tudo, o concreto. A gente nasce como um Nada, um vazio, e aí a gente se move pro tudo e vai construindo alguma coisa em si, “um passado” que é o SER em si, definitivo. O que fica de concreto no mundo concreto. E enquanto não “fica” definitivamente, é passível de mutação.
Tipo uma esponja, ou um filtro melhor dizendo. Algo amórfico, penso.
Porque a gente se move pra si também, você sabe, e é por isso que não é lá uma coisa muito concreta até que se termine, enfim.
Por isso que é tão instável.
A gente se cria um pouco também, toda hora.
De ilusão, ou melhor dizendo, de si mesmo.
Tem uma consciência da consciência. Sabe?
Um espelho mental projetado que a gente tenta seguir, ou pensa que segue.
A memória no fim das contas é isso, é um passado reinventado da consciência de si,
um passado que se refaz toda hora.
É o SER que a gente queria ter sido e que não foi, ou que foi mesmo,
de uma certa forma foi, não foi?
Na memória ta lá, ta tudo lá, recortado e devidamente editado,
então depois de um tempo sem ter sido, acaba passando a ser.
- e a chuva alivia a memória, cabe dizer.
Conforta essa coisa de ser mais nada do que tudo, essa coisa remota e livre de se jogar no mundo sem precedentes de nada. Toda ação íntima e sincera é sem precedentes por mais que já tenha acontecido zilhões de vezes.
E tudo é novo de novo na chuva.
Tudo é nada, é o zero, a morte. é o reboot da alma.
to begin again from the beginning.
Lavou ta novo, já diziam.
Lembrando dum verso do Leminski: Haja hoje para tanto ontem. É bem por aí. Sintoma de velhice, será?
Não. De vivência, melhor dizer. vivência. é, pouca, mas há. vivência concentrada.
E eu queria poder dizer: Haja chuva para tanto ontem.
Ou acha hoje pra tanta chuva.
Enfim.
Cabe perguntar se o universo tem só um verso? Ou existe um verso do uni-verso?
Acho que não né. esquece, esquece.
E essa vontade de escrever que não passa nem se concretiza... nada de concreto aqui, eu sei, não me iludo, nem você também, espero. Queria ser que nem o Vinicius. é. queria. Viver pra escrever, pra tocar, pros amigos, pro whisky, pra casa aberta, pra paixão, pra buscar sempre achar aquele cheirinho de livro novo da novidade da vida,viver no momento-já da água-viva da Clarice, viver e saber ler aquilo que ta bem atrás do pensamento, nas entrelinhas, no eterno arrebatamento entorpece.dor daquela primeiríssima namorada viva em todas as outras que vem e que passam. Aí sim ia ser bom escrever, sabe. Ter tempo pra isso, pra me perder nisso, viver PRA isso.
Agora eu vejo e já são 2:20 da manhã. Madrugada alta e calada. (a madrugada conspira)
A chuva parou e o alívio do início do texto foi junto. Só consigo dormir depois das 3, sabe. Muito raro antes. é. Muito, muito raro.
Só quando o cansaço puxa pelo pé e sufoca a gente de sono.
E amanhã trabalharemos todos. Agora é assim, né, a gente dorme pra acordar cedo e ir estudar e ir trabalhar e chegar em casa e dormir e sonhar que ta trabalhando.
O mundo é assim agora, trabalhe estude e depois viva, se tiver tempo e disposição ou os dois.
Enfim.
Morrir tentando viver.
Lembrando do Chico falando do Vinicius, no documentário Vinicius, que não saberia onde taria o Vinicius no mundo hoje em dia, sabe? Não tem lugar mais pra Vinicius no mundo. O mundo é incompatível com Vinicius.
Se bem que, se Vinicius nasce de novo uma parte do mundo acho que se torce, vira, quebra no meio, vibra e se transforma pra acompanhar Vinicius.
O mundo do Vinicius. O mundo é mutável também, em alguns casos. é sim.
Por isso que eu queria ser Vinicius. queria.
É o meu alter-ego, minha vontade filantrópica de mudar o mundo.
Talvez não o Vinicius “Vinicius”, mas o Vinicius falado pelo Chico e pelos outros também, pode ser, é, pode ser sim.
Porque a vida só se dá pra quem se deu. é.
E porque é preciso que eu não minta nunca pra poder dormir.
E eu duvido que alguém algum dia alguma vez na vida tenha alcançado em algum instante-já o estado de graça sublime euforicamente silenciado pelo momento em si bem atrás do pensamento, que alguém por algum segundo sequer tenha virado água viva como eu virei há alguns instantes atrás. Um prazer sem fim, um gozo da alma intraduzível. Incompatível com palavras (se bem que agora o momento citado se torce, vibra, entorta, quebra e se adapta a elas, palavras).
E dizer que água viva fui eu no exato momento em que li água viva.
Conspirações cósmicas ou afins.
È assim: Como se alguém tivesse escrito há 50 anos atrás, num pedacinho de guardanapo, qualquer frase do tipo “Olhe à sua direita” e 50 anos depois essa frase fosse voar para a minha mão no meio da rua e eu olhasse a direita e fosse atropelado e toda a minha vida mudasse naquele momento.
Atropelamento é isso. Evitável, mas então já era, um segundo de distração e você que fez acontecer e já virou pedaços, pedacinhos de você mesmo. É incrível. pois é.
Bem como viver o que ia sendo lido no momento exato em que eu lia e via que a pessoa 50 anos atrás tinha vivido exatamente aquelas mesmas coisas que eu vivia e lia e que eu fui descobrindo as mesmíssimas coisas na sincronia exata em que a leitura prosseguia. Sabe?
Na mesma progressão que minha vida caminhava, no mesmo ritmo, caminhava também a vida ou o pensamento daquela pessoa que escreveu aquelas palavras impressas 50 anos atrás. As mesmas aspirações ao mesmo tempo da mesma forma com o mesmíssimo desfecho, ou quase isso, pelo menos. Quase isso.
Como ler o que você ta vivendo, ler sua vida, um segundo antes de descobrir por si só o que você acabou de ler. Só que da pena de outra pessoa com 50 anos de distância.
Conspiração cósmica ou divina. ou o ciclo natural da coisa. enfim.
É meio assim:
O tempo de uma vida toda só de elucidações feitas pra você.
Uma vida inteira servindo pra te acordar. Pra acordar a todos, digamos.
E a gente constantemente acordando um pouquinho mais, sem voltar.
Waking life. sim.
(E quando as entrelinhas da vida finalmente se tornarem mais legíveis, se deixar ser atropelado simplesmente não será mais o bastante. é.)
Mas enfim. Voltou e parou de chover várias vezes e eu fiquei aqui olhando pro vazio do papel em silêncio. Tanto olhei pro vazio que não sinto mais nada, nem sequer vontade de escrever, só o vazio. O vazio atrai o vazio, feedback negativo. A lei da atração mais uma vez, a explicação cósmica de tudo. (rá!). Queria só dizer uma vez pelo menos, só uma vez, aqui dentro já que fora do papel não tem como (não há espaço) que uma leve sensação de arrependimento me invade de vez em quando, sabe, vem do nada, do vazio, desse mesmo vazio de agora. Bem de leve, mas. Não culpa minha. A impulsividade ainda me leva ao suicídio. A impulsividade e a bebida, que impulsiona a minha impulsividade. Não que seja a causa de tudo, não. Longe disso é verdade.
Nem de tudo me arrependo também, na verdade, pensando bem, não é bem um arrependimento, veja você, é algo bem próximo de, uma leve sensação de perda, melhor dizendo, uma ausência pressentida. Foi tudo muito bom depois, sim, sim, muito bom pra se arrepender de qualquer coisa. Não sobrou espaço pra isso. E é bom ter atitudes impulsivas e sinceras de vez em quando, isso diz algo sobre você.
Um nenhum cem mil. é.
Às vezes choca, mas enfim. Foda-se. Contanto que não seja lá muito nocivo... se não enlouquece, né? mas foda-se mesmo assim. Prudência demais dá câncer. dá sim.
O importante é saber na hora da bifurcação pra onde o nariz aponta.
E aí você foi sincero, creio, independente das conseqüências você foi por onde queria ali naquela hora e arcou com tudo, não tem espaço pra arrependimento. Espaço nenhum, creio.
Menos ainda quando a escolha foi certa, né. eu acho que foi. Foi, foi sim. muito foi.
Há agora – arrependimento - mas é por outro motivo sabe?
Porque nisso tudo, algo se perdeu no caminho, sim, ficou vibrando no ar, intacto, indecifrável.
um não sei o que que faz uma falta qualquer.
Foi tudo muito rápido, muito definitivo, e tinha algo, tinha algo que, alguma coisa que não precisava ser desperdiçada. Desperdício, essa é a palavra. Essa é a sensação. isso.
- Diga não ao desperdício emocional, ou algo por aí.
Não abrir mão de tudo por tudo, digo, saber triar as coisas melhor. sabe? triagem.
Porque prudência de menos também dá câncer. dá sim.
E é muito válido ir devagar pra sair levando o que importa, muito válido. sem pressa.
Olhos abertos pra todo mistério, porque cada vez fica mais difícil sabe? mais escasso isso tudo. E quanto maior a escassez , no final das contas, maior o preço. Mais valor você dá. é. fica tudo muito caro, no fim.
Enfim, ser menos extremista, essa coisa jovem e burra que mata ou enlouquece meio mundo de gente antes do tempo sem nenhum motivo real ou aparente.
Tudo exagero, veja bem.
Tudo piada, tudo teatro.
Em outras palavras: Se eu quisesse, pudesse ser alguma coisa na vida, qualquer coisa, eu me imagino dentro de um enorme campo de centeio andando na margem de um vasto precipício enquanto no campo correm, voam e giram desordenadamente todas as pessoas que de alguma forma me alimentam e me são caras e agradáveis e interessantes e me instigam na vida de alguma forma sabe, e tudo o que eu faria, tudo o que eu faria seria passar a tarde correndo e voando e girando desordenadamente com elas, morrendo junto aos pouquinhos, e sempre que tendessem ao precipício, sempre que chegassem perto, eu deveria correr e apanha-las antes que caíssem, seria o apanhador no campo de centeio e tudo.
Mas pra sempre não, não toda hora. só durante a tarde.
de noite eu iria pra casa e dormia. é.
Em outras palavras:
É como num livro, num bom livro.
Se você lê muito rápido pra chegar logo no fim fica sempre aquela vaga sensação de que deixou algo escapar,
de que algo ficou no caminho.
nas entrelinhas, digo.
Quarta-feira, Março 28, 2007 (1:09 AM)
sintaxe livre. boemia, loucura, literatura. paixão até a demência. entre o playground e o abismo. entre o sublime e o grotesco. peraltice e lirismo; infâmia intimista. hipertexto despretensioso, intertextualidade aguda; analogia e ironia (ilusão é questionar). o teatro, o virtual e a eterna correlação de todas as coisas. nem obra acabada, nem obra aberta. rascunho à toa. O fingi.dor e a auto-sabotagem (é tudo piada, tudo piada, tudo teatro..). a realidade omissa, a retórica, e a semântica argumentativa que pensa que se basta. É tudo argumentação. alegorias sem fim num feedback negativo de alguma outra alegoria qualquer. o real clandestino e o seu duplo, pragmatismo radical e já não mais qualquer utopia. one way dialogue to speak our mind. o eterno espelho da ilha de edição das nossas cabeças e o reflexo translúcido de mim mesmo. o paraíso perdido e inacessível e insaciável. um abrigo multidões. é um, nenhum, cem mil. É o mistério que sempre há de pintar por aí (olhos abertos a todo mistério!). É a outra voz, a contracultura da alma, o bliss intraduzível que dá na gente no loop infinito do tempo que se repete. É toda a grande mentira do tempo sendo um enorme simulacro de um único momento que se prolonga no espaço interminável. É a utopia da física quantica. é o déjà vu e a viagem sem fim em torno do próprio umbigo e do próprio tesão. (sem tesão não há solução). não, não é automatismo, juro. é jazz do coração. é prosa que dá prêmio. É o que calha de dar na cabeça tendo a pena na mão e a alma pequena. É um desencana que a vida engana, o texto cobrindo o concreto, é tudo contexto, é tudo pretexto pro verso. É o avesso do avesso do avesso do inverso. É o eterno regresso. É o (re)fluxo de (in)consciência. É o cano de escape por onde a gente escapa. É um prédio em construção, vários andaimes e vigas cortando o vazio e desenhando caminhos de ferro pelo ar. É a transfiguração. É tudo isso e não é nada disso, é um amor sem fim, verborragia poética ad infinitum, é um minto, desminto e tanto faz...
Sexta-feira, Dezembro 22, 2006 (8:01 AM)
A aguardava no piso do elevador um pouco além da entrada do seu quarto de onde havia acabado de sair, já pronto e lá a aguardava fazia já alguns minutos. Não se podia dizer que era bem um elevador, pela arquitetura do prédio, não, era mais um andaime gigante no interior da construção, bem no centro do edifício, um terminal flutuante que ligava os diversos andares. Não havia paredes entre os corredores e tanto o piso como o teto eram gradeados. O enorme piso flutuava no ar, no vazio entre os andares. Só haviam paredes nos cômodos, sim, paredes tetos e portas. Alguns dos cômodos ficavam para o lado externo da construção,
de tal maneira construídos que não necessitavam paredes externas, veja bem, eram completamente virados para o vazio, vista panorâmica do nada.
Pensava como seria ter um daqueles cômodos abertos quando ela veio surgindo à minha frente, surgindo sorrindo, vestido vermelho e uma fenda do lado direito que me gelou da unha à raiz do cabelo. Creio que foi o sorriso, sim, o sorriso foi que deu início a tudo. Pensava, enquanto aguardávamos o elevador, e enquanto explicávamos para um vizinho sozinho que terminava de se arrumar alguma coisa vaga e indefinida sobre algum lugar distante, além de onde estávamos, o que era estranho, pois não havia mais nada além dali, mais nada além do vazio escuro que nos circundava. Fiquei tentando entender quando então chegou o elevador e subimos com mais umas 60 almas e logo pela altura dos últimos andares já dava pra visualizar de baixo a multidão acima que se aglomerava em pares para algum evento qualquer onde todos iam, não sei bem ao certo o que.
Subia um pouco tenso, pois não íamos para lá, não, íamos para o andar de cima, a cobertura, o último piso gradeado no vazio. Uma única entrada no piso deserto da cobertura parecida com uma caverna iluminada para um corredor, este sim, com muitas paredes, sólidas, cavernosas e brancas, que davam em inúmeros cômodos dispersos. Como um pequeno labirinto.
Subíamos enquanto eu pensava, pensava em nada na verdade, o vazio me tomava a cada andar que subíamos, um vazio sem fim, impossível de se evitar, veja você. O vazio me puxava, eu já sentia, mas não sabia porque.
E o barulho alheio era tanto que confundia o meu pensamento, não conseguia pensar com a felicidade alheia interferindo, felicidade alheia e mesquinha e vazia, tão vazia quanto aquele grande vazio.
aguardava que a multidão diminuísse um pouco, e realmente, passados alguns poucos segundos todos foram sumindo, todos sumiam e sumiram. Estávamos sós e fomos caminhando silenciosamente lado a lado para a entrada, não sei no que ela pensava nem no que eu pensava, nem sequer a olhava, era estranho, tenso, caminhávamos rapidamente e sem se olhar, eu um pouco mais a frente, ela do meu lado com o passo um pouco mais atrás, creio.
Já perto dos descaminhos, um pouco além da entrada, na bifurcação principal, só lá um pouco a frente vim a compreender que, compreendi que, enfim, andava sozinho. Olhei ao redor e nada, estava sozinho. Foi então que percebi que, percebi que não sabia a quanto tempo já estava só e não sabia. Até que lá no início de tudo você vinha, lá do início de tudo, igualmente sozinha, vinha e caminhava a passos pesados em minha direção, enfurecida não sei porque razão, veja bem, foi tudo uma grande confusão, a gente se perdeu no caminho sem que eu entendesse sequer o que tinha acontecido. Onde é que você tava, Perguntei docilmente ao que ela respondeu com um grito indefinido e agudo que me cortou a pele inteira do corpo. Entramos rapidamente na última porta do primeiro corredor e mal haviamos entrado ela começou a gritar enlouquecida sem se fazer sentido, frases cheias de quem, o que, você, não sei.. estranho, muito estranho. só se fazia reconhecer insatisfações e uma falta de ar sufocada, abafada em meio aos gritos indefinidos. Ahn, o que, Como assim quem é, como assim, você conhecia, não sabia, eu achava que sim, não sei, por que, explica, calma... E então mais grunhidos inidentificáveis, e uma loucura e lágrimas que lhe tomavam a face e agora só chorava com um raiva que me congelou mais uma vez a alma da unha à raiz do cabelo. Dizia que não tinha feito nada, que não era sobre mim ou sobre ninguém, e que iria terminar, iria tudo terminar um dia, veja bem, o vazio engolia a todos, e que não tinha mais sentido, chorava e gritava que agora era definitivo e me apontava o dedo constantemente, com ódio, mas não de mim, veja bem. Peguei uma garrafa de vodka russa do frigobar, absolute, sim, e tentei lhe segurar, calma, argumentar o que foi, que que houve, me explica, calma, bebe um pouco, vamo conversar...
Não, não fazia sentido, como tinha lhe dito há algumas horas apenas uma amiga, veja você, que era uma puta falta de respeito minha com ela e aí então meu sangue gelou de raiva e eu já não agüentava mais tanta incoerência e injustiça, e eu nunca fazia parte de nada, de nenhum pensamento e conclusão sua, como assim, o que foi que eu fiz? Não fazia idéia do que se tratava o que tinha a ver meu amigo e suas amigas com toda essa raiva e por que não me explicava o que tinha acontecido, alguma coisa qualquer que fizesse sentido e me desse alguma chance de me defender, que me incluísse no seu raciocínio sem nexo. Já eu também chorava e chorávamos os dois, perguntei porque e ela disse não sei, chorava um choro de outros assuntos que já nem sabia mais quais eram. Eu tentava lhe segurar e por um pouco de sentido nas suas palavras e ela se desvencilhando e a vodka já virava em nossas cabeças solta no ar pois eu já havia perdido o controle da garrafa e nossas roupas grudavam molhadas em nossas peles brancas que queimavam com o álcool. Um banho, calma, um banho para tirar o álcool que queimava a pele e meus olhos já não agüentavam mais, eu já não agüentava mais de ardor.
Ela se acalmou enfim, cedeu, cansou, embora ainda soluçasse de tristeza.
Abrimos a porta e empurramos um desconhecido que entrava pela fechadura e seguimos para uma outra porta, um outro quarto, mas não era um quarto, veja você, não era um quarto, era um piso vazio e gradeado, um piso vazio e um chuveiro na parede única que também era a porta. Além dele, o vazio, o nada, o universo escuro ao nosso redor, em nossas cabeças. Abri o chuveiro e ficamos ainda ali parados, soluçando em silencio, olhando as estrelas frias e distantes e pensando em nada. O vazio nos chamava, rumo ao inevitável. Então entramos debaixo do chuveiro para um último momento na água gelada, na água gelada de reconciliação e sossego que descia pelas nossas cabeças sussurrando paz e por lá ficamos, por lá ficamos ainda num longo momento de trégua, lavando os pensamentos sem sentido e os pecados passados da alma...
Quinta-feira, Junho 16, 2005 (2:38 AM)
O corpo aos poucos ia arquitetando sua própria contracultura.
Os olhos verdes, agora fixados nos olhos do rótulo da cerveja, rotulavam entre a garrafa e os outros pares de olhos que lhe videavam casualmente, aqui e ali, entrepapos.
Os pés descalços sapateavam involuntariamente debaixo da mesa, a brincar com a areia úmida, a pisar na vaidade sóbria, enquanto que
a boca bebia suavemente de sua cerveja gelada e soltava aos poucos
o sorriso e o riso, e o riso.
De súbito, os olhos pararam involuntariamente em
outros olhos, estes castanho-escuros.
Coisas do magnetismo ou da embriaguez.
A cabeça então sacudiu-se levemente, tentando dissipar a tontura.
O quadril, decidido a levantar, empurrara suavemente a cadeira para trás, enquanto que, de maneira brusca e descordenada,
os joelhos impulsionaram o corpo para cima e se não fossem
as mãos, sempre cegas a tatear a mesa e a se apoiarem a ela no último minuto,
o corpo por certo cairia, junto com a cadeira que caíra surdamente à areia,
como um corpo morto cai.
Desfeitos do susto e de volta às sandálias,
os pés tomaram seu rumo errando pelo bar e disfarçando o cambaleio incerto no ritmo do samba que impregnava os ouvidos e a rua - se não o quarteirão inteiro. As unhas compridas desabotoaram o short com uma certa dificuldade,
ao entrar no banheiro, e, abaixando a calcinha até
os joelhos, sentou-se sem pudores num daqueles vasos imundos em que ninguém ousa sequer encostar.
Os pés fugiram das sandálias mais uma vez e encontraram o chão úmido e sujo. Deliciou-se em se aliviar do excesso daquele líquido quente por alguns segundos e permaneceu ali sentada por mais algum tempo indefinido,
os pés a acariciar o concreto molhado.
A sordidez do momento fascinava-lhe a ebriedade da mente.
Assobiava olhando o vazio e sua mente vazia não conseguia pensar em nada, absolutamente nada,
e sentiu-se feliz, verdadeiramente feliz, leve e absorta numa felicidade branda e suja, incomoda e deliciosamente suja, enquanto que ao mesmo tempo
a mente vagava pura e sublime entre toda a sujeira e podridão que lhe censurava a alma.
Estava então por um curto momento liberta dos seus preceitos morais, das regras sociais que lhe foram impostas, das suas auto-censuras, da sua infelicidade consigo mesma.
Levantou-se enfim, sem se limpar, embora houvesse papel, e vestiu-se devagar, transgressoramente devagar, saboreando aquela vaga satisfação pessoal de deleite íntimo e proibido, e assim foi saindo, um pouco menos presa, um pouco menos pesada, um pouco menos confusa.
Virou-se ao caminho de volta, ainda alheia ao resto do mundo, e já na saída do banheiro lá estavam
os olhos castanho-escuros, a lhe esperarem, a lhe penetrarem, a lhe penetrarem
a alma hipnoticamente e de repente foram só flashes,
como num filme cortado ou como um trem a empurrar-se por um túnel,
os beijos e passos firmes a empurrarem
os seus passos e lábios incertos,
a lhe atropelarem por inteira e lhe dominarem os braços,
como uma onça em cima de uma presa, os braços levantados e presos, completamente inanimados, entregues e indefesos,
propositadamente indefesos, o cenário a mudar,
as costas encontrando uma parede qualquer e num vacilo da sandália
lá estava de novo o chão úmido e podre e a falta de luz e o fedor que denunciavam seu regresso precoce ao banheiro e então
foi tudo muito rápido, os beijos, os sussurros, o delírio, o calor, o êxtase,
e num instante já estava no chão,
e já não via mais nada
e já não sentia mais nada,
apenas deitava no chão frio e imundo de um banheiro podre qualquer, inconsciente num banheiro qualquer,
completamente inconsciente como que desfalecida,
apagada no amparo de uns olhos castanho-escuros assustados e
de um par de lábios que tentavam desesperadamente lhe reanimar,
mas só no outro dia viria a recuperar os sentidos, só no outro dia,
deitada nos lençóis brancos e limpos de um hospital público qualquer,
com uma agulha na veia e um alfinete na consciência pesada,
a lhe cobrar respostas que não tinha, que não tinha na sua memória fragmentada, que nem mesmo imaginava ter.
Sofreria desse vazio, dessa incerteza por ainda mais alguns dias,
e aí então voltaria à sua rotina, às suas cobranças pessoais, aos seus escrúpulos
e preconceitos minimamente aturáveis,
aos seus preceitos sociais tão logicamente justificáveis e óbvios e corretos,
à sua incapacidade de quebrar o design de sua própria vida,
do seu próprio destino, voltaria à sua ignorância a respeito do que seria a tal indefinida felicidade dos tantos filmes e livros e histórias que ela achava que conhecia,
do que era liberdade e espontaneidade de fato,
do que viria a ser o bliss,
o bliss intraduzível do qual só se ouvia falar por aí,
sem nunca vir a saber que por um momento perdido o soube,
que por um momento qualquer o teve.



